Setembro 2014

Quando o mar toca o céu

por Afonso Gregório » 02 set 2014, 23:44

Boas, para mim, uma manhã de pesca ideal inclui céu tapado e nevoeiro serrado, não é segredo para ninguém. Adoro pescar nestas condições… o mar pinta-se em tons de cinzento; as cores ficam mais vivas, mas, no entanto, sem sombras; o som do farol interrompe o barulho da rebentação; e, toda a mística que estas condições atmosféricas englobam, apodera-se de mim. Sinto-me tão bem junto ao mar, no meio da neblina, a tocar o céu.

Nas passadas quarta e quinta-feira foi justamente com este cenário que me deparei quando vislumbrei o céu. Tomei o pequeno-almoço o mais depressa que consegui, preparei o material e corri para onde tanto gosto de estar… junto ao mar. Era assim que o dia acabara de acordar:

afonso gregorio 1

O mar

Montei a cana, o carreto, engatei no clip a amostra e rapidamente comecei a lançar. Mas, era impossível pescar… O mar estava carregado de limo solto em toda a coluna de água. Não havia um único lançamento em que não trouxesse limo na amostra. Havia que mudar a abordagem e lembrei-me de recorrer ao vinil. Troquei para um Black minnow 120 e foi essa a minha salvação. Apesar de continuar a “recolher” muito limo, conseguia ter a amostra a pescar por muito mais tempo!

afonso gregorio 2

Limo

O mar estava a mexer mesmo bem no final da vazante, justamente como eu gosto. A espuma branca estendia-se num manto que cortava as rochas que emergiam fora de água e eu saltava de pedra em pedra, em busca do tal sítio que me poderia fazer feliz. O local onde pesco é de fundo de pedra, um autêntico cemitério de amostras como poderão ver nas fotos. As prisões são recorrentes e à medida que lançava, eis que sinto mais uma grande pancada. Mas… esta não enganava, esta não era pedra. Esta abriu início para uma corrida pelo mar fora, acompanhada daquela sinfonia accionada pela embraiagem do carreto! Foram minutos de pura adrenalina, com investidas de ambos os lados até que o peixe veio finalmente à superfície confirmar que não era pequeno! Com cuidado aproveitei a escoa para colocar o peixe a seco em cima de uma rocha e rápidamente o colhi! A minha velhinha Beast Master portou-se mais uma vez a altura, “mata” o peixe muito mas muito bem mesmo!

Peguei no peixe e levei-o para longe da rebentação. Deitei-o em cima de uma pedra e por instantes fiquei a contemplá-lo. Era um lindíssimo robalo da pedra, com um dorso negro e flancos dourados.

afonso gregorio 3

Palavras para quê…?!

Antes de continuar com as fotos rapidamente pequei na faca e acabei com o sofrimento do peixe que tão digna luta deu. Deu os seus últimos safanões e teve um descanso merecido, sem mais sofrimento.

afonso gregorio 4

afonso gregorio 5

afonso gregorio 6

A pesca para mim estava feita, cabia-me agora continuar a aproveitar. E como apaixonado pelo mar que sou, fui tirando fotografias…

Às anémonas:

afonso gregorio 7

Às pedras:

afonso gregorio 8

Às poças:

afonso gregorio 9

Ao peixe:

afonso gregorio 10

afonso gregorio 11

E também eu consegui o privilégio de um par de fotografias com o meu troféu:

afonso gregorio 12

afonso gregorio 13

Estava tão mas tão feliz! Sentia-me tão bem, sentia-me tão vivo, a aproveitar a minha vida de uma forma tão peculiar e guiada por esta paixão que é a pesca. Não há palavras para o transmitir, infelizmente…

No dia seguinte o mar ia estar maior, mas ainda dava para pescar e segui as mesmas passadas da manhã anterior. Calmamente me levantei pela madrugada e para minha agradável surpresa, quando nada o fazia prever, mais uma vez me deparei com o meu quadro de perfeição no que toca à pesca. Preparei todo o material e dirigi-me ao pesqueiro. A neblina tapava tudo, parecia que eu era a única pessoa no mundo e não me sentia perdido… sentia-me livre! Livre a correr pela estrada onde o mar consegue tocar o céu!

Desta vez levei companhia, alguém especial com quem pudesse tentar partilhar algumas das emoções que sentia! O mar estava novamente cheio de limo e só o vinil conseguia evitar minimamente as prisões. Mas fora isso estava a rebentar bem, tinha que haver peixe! Via tainhas a saltar de quando em vez e tinha este feeling dentro de mim… tinha que haver peixe! E eis que o meu palpite se tornou numa surpresa! Um impacto forte inicial e muitas cabeçadas no decorrer de mais uma batalha entre mim e o peixe! Com o mar que estava deu muito trabalho a colocar o peixe a seco, tenho que confessar. Tive que coordenar os saltos nas pedras com as maniveladas no carreto, com os puxões na cana e com as investidas do peixe pelo meio de rochas que parecem serrilhas! Mas, com calma e paciência não há impossíveis e, trouxe o peixe para uma zona onde o consegui colher… Palavras para quê?!

afonso gregorio 14

afonso gregorio 15

afonso_gregorio_16

Em suma, foram dois dias que me deixaram a sentir realizado. Oxalá todos tivessem alguma paixão que transmitisse tudo isto que sinto quando pesco. A pesca é muito mais do que o simples peixe. A pesca é tudo e não é nada, a pesca é o que cada um de nós sente através dela.

Um grande abraço,
Afonso Gregório

Ficha técnica:
Cana: Shimano Beast Master 3m;
Carreto: Shimano Stradic 4000 FI
Linha: Berkley Whiplash Crystal 0.06mm / baixada 0.40mm
Amostra: Fiiish Black Minnow 120
Peixes:

-4.050 Kg / 71 cm;
-3.800 Kg / 70 cm

Facebooktwittergoogle_plus

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *