O achigã e a hereditariedade

Porque o tema se enquadra como justificação de discussões recentes, aqui fica alguma investigação bastante actual sobre o achigã, a hereditariedade e os impactos da pesca sobre as suas populações. Muito provavelmente, já testemunharam um achigã ser capturado duas vezes no mesmo dia, ou mesmo um achigã que e capturado várias vezes ao longo do tempo, mas sempre no mesmo lugar. Será esse achigã, burro (sem desprimor para o equídeo)? Será que ele não se consegue lembrar que não deve atacar aquela coisa que lhe passa na frente?

Segundo um estudo recente, existem provas que certos achigãs têm maior propensão para serem capturados do que outros, e que esses mesmos achigãs podem passar essa característica à sua descendência. Isso, quer dizer também, que existem aqueles difíceis de capturar e que também eles passarão esse legado à sua descendência.

Vamos então ao estudo realizado por investigadores da Universidade de Illinois nos EU e recentemente publicado na revista científica Transactions of the American Fisheries Society (138:189-199, 2009), intitulado: “Vulnerabilidade selectiva do achigã à pesca recreativa”. Se é de notar que os resultados não são por aí além surpreendentes, a duração do estudo é-o, 20 anos.

O trabalho iniciou-se em 1975 e foi inicialmente desenvolvido numa pequeno lago, chamado Ridge lake. A pesca lá praticada foi controlada, e todos os pescadores, quando capturavam um peixe colocavam-no no viveiro do barco, e posteriormente, toda a informação relativa a cada exemplar era retirada, os animais eram marcados, após o que eram devolvidos à água.Durante quarto anos, todas as capturas foram registadas, tendo-se verificado milhares de capturas. Verificou-se ainda, que muitos peixes foram capturados mais de uma vez. Um peixe foi capturado três vezes nos primeiros dois dias, e outro, foi capturado 16 vezes num ano.Depois dos quarto anos, o lago foi drenado e mais de 1700 peixes foram capturados. Curiosamente, cerca de 200 desses peixes nunca foram capturados, embora tenham estado no lago no decorrer desses quatro anos.

Entre os peixes recolhidos, machos e fêmeas que nunca foram capturados, foram designados Pais de Baixa Vulnerabilidade. De forma a produzir um linhagem de descendentes de Baixa Vulnerabilidade, permitiu-se que os progenitores reproduzissem entre si, nos tanques da universidade.

Da mesma forma, machos e fêmeas capturados quatro ou mais vezes, foram designados de Grande Vulnerabilidade e posteriormente reproduziram-se entre si, em tanques distintos dos de Baixa Vulnerabilidade, de forma a gerarem um descendência designada de Grande Vulnerabilidade.

Posteriormente, as duas linhagens de descendentes foram marcadas, e colocadas em tanques comuns onde cresceram até um tamanho suficiente para serem pescados.

Experiências de pesca controladas, mostraram que os descendentes dos pais, denominados de Grande Vulnerabilidade era também eles mais vulneráveis à pesca do que os descendente dos Baixa Vulnerabilidade.

O mesmo processo de selecção/reprodução foi repetido ao longo de 20 anos. A cada geração a vulnerabilidade à pesca aumentou cada vez mais. Assim, e tal como inicialmente previsto, verificou-se que a vulnerabilidade é uma característica hereditária.

Em conclusão, os responsáveis pelo estudo focaram vários pontos a ter em conta.

Primeiro, que o estudo prova que a vulnerabilidade à pesca é uma característica hereditária. Para além disso, a diferença de vulnerabilidade aumentou ao longo das gerações, no entanto, a maior parte das alterações ocorreram no grupo de Baixa Vulnerabilidade, tendo ocorrido apenas um ligeiro aumento no grupo de Grande Vulnerabilidade.

É de notar que esta experiência acelerou o que acontece de facto na natureza, os pescadores capturam os peixes de Grande Vulnerabilidade. “No meio natural, os peixes mais vulneráveis são os que são preferencialmente capturados, e como resultados disso as populações de achigãs estão a ser selectivamente direccionadas para se tornarem menos vulneráveis” afirmam os investigadores.

Tal como referido acima, um dos propósitos deste estudo foi avaliar o impacto evolutivo da pesca recreativa, e a conclusão global foi que os achigãs estão a evoluir no sentido de se tornarem menos vulneráveis, isto é, tornam-se mais difíceis de capturar.

Os investigadores, aplicaram então esta informação a peixes em período de desova, e argumentaram que se se retirar um peixe vulnerável do ninho, esse ninho pouco irá contribuir para a população, e os achigãs que sobreviverem serão de ninhos de pais com baixa vulnerabilidade. Noutras palavras, pescar na altura da desova cria populações mais difíceis de capturar.

Os autores afirma que entre os Pescadores existe a convicção de que o C&R não tem impactos negativos na população. No entanto, se a pesca for praticada durante a época de reprodução (não há defeso nos EU), se os achigãs forem pescados e mantidos afastados dos ninhos nem que seja por breves minutos, quando são devolvidos, já é demasiado tarde, e outros peixes já terão comido toda a prol. “Outro problema reside nos torneios de pesca” acrescentam os autores. “Muitos torneios são feitos na primavera porque há uma maior disponibilidade de achigãs. Nesses torneios, muitos achigãs capturados e mantidos em viveiros, depois são efectivamente libertados, mas somente cerca de 8 horas depois, e a quilómetros do local de captura e do ninho, por isso, o ninho é destruído.”

Concluem os autores que a pesca tem um efectivo impacto evolutivo sobre as populações de achigãs e que se realmente se quer proteger este recurso para o futuro, tem que se ajustar as estratégias de gestão.

Ora transpondo isto para a realidade Portuguesa, não existem estratégias de gestão, os peixes são mortos às carradas, por isso, nem progenitores, nem ninhos, donde está-se a contribuir para uma diminuição significativa dos activos e esses, tornam-se ainda mais difíceis de capturar. Assim, sendo e no actual contexto, a única coisa a fazer é mesmo pescar e libertar.

Texto:

Dr. Jorge Palma

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